Por Pedro Arruda
Nas conversas de que venho participando ultimamente a respeito do reino de Deus e do papel que nele cabe à família exercer, um assunto tem-se evidenciado: a volta de Jesus. As impressões compartilhadas avivam a esperança de que o retorno de Jesus passe a figurar em nossas agendas como evento a se cumprir num futuro bem mais próximo do que antes imagináramos.
Mesmo que de forma inconsciente, ou não formalizada, não fica de fora das expectativas de alguns o dia do seu encontro definitivo com Deus, uma espécie de acerto de contas que a morte oportunizará. Aliás, a morte é um acontecimento que nossas agendas não têm como evitar. Porém Deus reserva coisas surpreendentes e inéditas que nossas agendas precisarão ter a ousadia de passar a considerar, a maior delas relacionada ao evento mais importante de todos os tempos: a volta de Jesus. Em outras palavras, podemos reconsiderar nosso encontro com Jesus – talvez até então algo visto como um fato distante do cotidiano, meramente teológico, destinado a ter ocasião após a morte física – como uma realidade a se manifestar não muito depois desses dias. Jesus vai voltar para restabelecer o seu reino aqui na Terra, e isso implica necessariamente e de forma radical a nossa agenda.
Ao ensinar sobre o reino de Deus, Jesus usou muitas vezes o recurso de fazer seu interlocutor se imaginar presente a este grande encontro cósmico do homem com Deus. Basta lembrar, entre outras, a conhecida parábola sobre a avareza de um homem cujos campos produziram com abundância, o que lhe trouxe a ideia de construir celeiros maiores que comportassem os produtos e bens com que pretendia fazer sua alma se regalar e descansar por muitos anos. No entanto, nem se deu conta de que naquela mesma noite, Deus lhe pediria sua alma e os acúmulos de nada lhe adiantariam (Lc 12.13-21).
Podemos, ainda, usar outra ilustração, partindo do conflito que Alfred Nobel, o conhecido criador do Prêmio Nobel, experimentou quando da morte de seu irmão Ludvig, que foi noticiada por um jornal europeu indevidamente como sendo a sua, a do inventor da dinamite. A manchete que o adjetivava como “o mercador da morte”, em virtude dos destinos sinistros que sua invenção vinha provocando, permitiu-lhe antecipar o epitáfio que a posteridade lhe reservaria. Alfred decidiu reverter a situação e legar sua herança à criação de uma instituição que oferecesse a cada ano uma premiação àqueles que se dedicassem a fazer o bem à humanidade nos mais variados campos, entre os quais merece destaque aquele relacionado à paz. Hoje a imagem de Alfred Nobel está amplamente associada à paz. Isso foi possível porque ele teve a chance de se imaginar depois da morte, o que o fez trabalhar para mudar o que o destino lhe reservava.
As muitas advertências de Jesus a fim de que as pessoas se vissem surpreendidas pela chegada inesperada “daquele dia” chamam-nos a atenção para a necessidade de uma preparação, de um redirecionamento do estilo de vida, sobretudo um que contemple a possibilidade de que Jesus está vindo para implantar o seu reino aqui na Terra, e isso poderá se dar antes mesmo do fato inexorável da morte de muitos de nós.
Os dias de Noé
O exercício de nos colocarmos no lugar de pessoas que se viram diante de situações inéditas não é fácil, porque pensamos com categorias de quem, muito tempo depois de tais situações terem virado história, já se habituou a muitas delas. Dá para acreditar, por exemplo, que até a Idade Média, as pessoas não sabiam ler somente com o pensamento? Sim, por incrível que pareça, a leitura era algo que só se praticava em voz alta, o que fazia com que alguns se retirassem para um lugar afastado quando precisavam ler uma correspondência de interesse particular. Hoje, cercados de informações por todos os lados, absorvemos os dizeres dos letreiros em pensamento com a mesma naturalidade com que respiramos.
Jesus alude a coisas inéditas em Mateus 24.37: “Pois assim como foi nos dias de Noé, também será a vinda do Filho do Homem”. Pensemos um pouco sobre “os dias de Noé”, começando pelo fato de que nunca havia chovido antes de Deus enviar o dilúvio sobre a Terra. Como as pessoas poderiam formar uma imagem do que Noé tentava lhes transmitir ao verem-no construir a arca? Se a chuva era uma coisa inédita, tanto mais um aguaceiro naquelas proporções! No entanto chegou o momento em que passou a chover, e as águas dessa primeira chuva, ao que tudo indica acumuladas desde a criação, precipitaram-se de uma só vez. Era uma coisa inédita.
Não menos inédito era Noé construir uma arca num lugar seco. Às pessoas só restava observar e achar aquilo um absurdo. “Esse homem está louco, isso não existe, nunca antes na história da humanidade aconteceu de chover”. Mas Noé seguia, ano após ano, trabalhando em sua arca. Como se não bastasse apenas fazer uma obra inédita, diferente, desafiadora para os conceitos daqueles homens, havia também uma oposição generalizada na sociedade daquela época em relação a Deus. Tem-se a impressão de que o demônio estava muito perto de tomar conta da terra, um sonho antigo dele. Tal era a gravidade da situação que o relato bíblico menciona a orgia dos filhos de Deus (os anjos) com as filhas dos homens (as mulheres), do que se originaram aberrações, conhecidas como gigantes, que passaram a surgir na Terra (Gn 6.1-4).
De acordo com Jesus, nos dias que antecederam o dilúvio, os homens “casavam e davam-se em casamento”. Aquilo que era uma prática instituída pelo próprio Deus, nesse contexto específico assume uma conotação de banalização do matrimônio. E olha que o casamento da época distanciava-se enormemente de sua configuração atual, com cerimoniais, marchas nupciais, noivos devidamente paramentados. À ocasião e durante muito tempo, o casamento esteve mais associado ao ato sexual. A união de Isaque e Rebeca, consumada com o noivo introduzindo a noiva na tenda de Sara, é um bom exemplo. Esse é o máximo a que podia chegar a cerimônia. Vale notar, no entanto, que a devassidão desvirtuara tanto o propósito inicial, que até os demônios (ao tomarem as filhas dos homens) tiveram o entusiasmo de participar disso.
Para quem o observasse, Noé agia de forma totalmente absurda, tanto em relação ao empreendimento da arca quanto à oposição que sustentava contra o comportamento que a sua sociedade tinha adotado como padrão para aqueles dias e que curiosamente encontra paralelos estreitos com a época atual, no que diz respeito à banalização do casamento, do que se constitui um flagrante exemplo as uniões entre pessoas do mesmo sexo e as discussões para legalização de tal prática que, presume-se, não tardará a incorporar-se aos códigos civis como coisa normal.
Noé se opunha àquilo que era regra na sociedade. Vejamos: ele tinha somente uma esposa a quem era fiel; seus três filhos seguiam-lhe os passos: cada qual tinha a sua única esposa, destoando do padrão circundante. Diariamente, esses filhos eram desafiados pela sociedade a abandonar Noé e a fazer aquilo que era comum e considerado correto, ao invés de ficarem trabalhando num projeto “louco”. Louco, de dimensões faraônicas e interminável: 120 anos despendidos naquela obra, o que significava 120 anos de oposição ao que a sociedade achava normal naqueles dias.
Não é difícil perceber que Noé tinha o controle, no bom sentido, da sua família. Os seus não se contaminaram com o mundo, mas mantiveram-se fiéis ao patriarca e próximos a ele. E o que é melhor: Noé não teve que escolher entre fazer a obra e atender a família. Foi fazendo a obra que ele preservou sua família. Há um grande ensinamento aqui: ninguém poderá alegar que Deus nos deixa numa encruzilhada e pede, nesse particular, que escolhamos um entre dois caminhos. Muito pelo contrário: o chamado de Deus inclui, sim, a família.
A correspondência dos dias de Noé com os nossos é muito grande. O fato inédito que está bem diante de nós é que Jesus vai voltar! Sim, muitos sabem disso em teoria, como uma informação escatológica, porém distanciada da vida cotidiana. Mas as reações são variadas: há quem fique incomodado, irritado, há quem desdenhe, e mesmo quem evite tocar no assunto por medo ou receio.
A família no plano de Deus
Acompanhemos como a família protagoniza as ações de Deus ao longo da história da humanidade. Quando Deus criou Adão e Eva, deu uma missão a Adão que só poderia ser cumprida através da família: o casal deveria gerar filhos e filhas que expandissem para toda a Terra o governo de Deus experimentado no Éden. Como o projeto não deu certo nesse momento, Deus o retoma posteriormente com Noé: logo após o dilúvio, acompanhamos as mesmas instruções que haviam sido dadas ao primeiro casal agora sendo confiadas a Noé e sua família. Mais adiante na história bíblica, Deus chama Abraão e Sara e faz-lhes uma tríplice promessa: uma bênção individual (“abençoarei os que te abençoarem”), uma bênção nacional (“farei de ti uma grande nação”) e uma bênção universal (“em ti serão benditas todas as famílias da terra”). Em suma, a exemplo do que já acontecera com Adão e Noé, a partir de Abraão, Deus quer conquistar toda a terra.
Quando Jesus vem ao mundo, Deus resolve trazê-lo por meio de uma família. Ao escolher Maria, Deus não tinha em vista uma relação impessoal apenas com o objetivo de providenciar um ventre para o seu Filho. Ele deixava clara sua consideração pela família. Percebe-se isso quando, após dirigir-se a Maria anunciando sua gravidez, Deus passa a se comunicar com José, a quem confia toda a orientação acerca dos cuidados que o casal deveria dispensar para o crescimento de Jesus.
Com a inauguração da igreja, no Pentecostes, todos que presenciam os discípulos cheios do Espírito Santo e falando em outras línguas, cobram uma explicação para acontecimento tão inusitado. Inspirado, Pedro menciona o profeta Joel como uma tradução exata do que se passava em Jerusalém, numa referência ao Espírito que seria derramado sobre todas as famílias nos últimos dias. Sim, quando Joel menciona “vossos filhos e filhas profetizarão”, dirige-se aos pais desses filhos e filhas; da mesma forma, aos pais dos jovens que terão visões. Joel fala também dos anciãos (as gerações antigas) que sonharão sonhos e dos servos (a família estendida) sobre quem especialmente, de acordo com o texto original, o Espírito virá. Toda a família está representada e é o alvo do Espírito Santo naquele revestimento de poder concedido no dia de Pentecostes, do que se conclui que a igreja nasce no seio de uma família, assim como uma pérola é formada dentro de uma ostra. Temos, com isso, a possibilidade de a terceira bênção prometida a Abraão ter cumprimento: “em ti serão benditas todas as famílias da terra”.
A propósito, nós não vamos encontrar, no Novo Testamento, uma linguagem própria para definir as funções na igreja. Isso era buscado na família: aquele que evangeliza o outro é chamado de pai ou mãe. Paulo diz que sentia dores de parto como uma mãe grávida a respeito dos filhos espirituais dele. As pessoas nascidas de novo são tratadas como irmãos. Quando Pedro vai evangelizar na casa de Cornélio, é em busca da família que ele está. E Cornélio reúne os seus amigos, os seus vizinhos e a família toda para ouvir Pedro. E toda a casa de Cornélio recebe naquele dia a pregação, o batismo no Espírito Santo, o batismo nas águas… Paulo lembra que batizou a casa de Estéfanas. Quando o carcereiro de Filipos depara-se com um terremoto e fica desesperado quanto ao que fazer ao ver as cadeias abertas, Paulo diz: “Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa” (At 16.31). São alguns exemplos, entre outros, de que o evangelho pregado na igreja apostólica era um evangelho destinado a toda a família, para a casa inteira. Não se tratava de um evangelho pregado do ponto de vista individualista. Não! Tinha-se a visão de que se devia pregar para a família.
Uma igreja um pouco mais tardia, como a que se vê em Timóteo, por exemplo, já traz a figura do diácono. Não há na família uma relação de parentesco definida por esse nome, embora nela se encontre quem sirva, quem ajude. Mas há que se destacar que mesmo em igrejas mais organizadas como essa (igreja organizada, aqui, está muito longe do que nós entendemos como igreja organizada hoje), a família se mantém como a banca examinadora daqueles obreiros que serão aprovados: portanto não era a eloquência, o conhecimento nem outras qualidades semelhantes que destacavam alguém para o ministério, mas a maneira como alguém tratava a esposa, os filhos e vice-versa. A maneira como o pai dirigia a casa aprovava-o ou desaprovava-o para funções de liderança na igreja. Vemos como a família era uma célula bem presente na qual a igreja estava incrustada.
Eu costumo pensar que a primeira divisão da igreja não se deu entre Roma e Constantinopla, Oriente e Ocidente. Ela é bem mais antiga e data dos primeiros séculos, quando a igreja começa a adquirir independência da família e construir uma entidade, uma organização, uma instituição própria, cuja evolução chegou aos nossos dias, em algumas de suas manifestações, ao ponto de militar contra a família ou de desprezá-la. Hoje parece que é a família que precisa da igreja, mas na sua origem era o contrário: a igreja precisava da família.
Um dia desses, enquanto dirigia, o título de um programa de rádio, “Escola de Profetas”, chamou-me a atenção. Numa seção do programa, havia o twitter de Jesus. Fiquei atento: o que Jesus estaria twittando naquele dia? “O que Deus ajuntou não separe o homem”, disse o âncora. Mas a questão bombástica vinha a seguir: “E quem Deus não ajuntou… o homem pode separar?” Fiquei pensando: seguindo o seu velho estratagema, o diabo não trabalha com afirmações, mas lançando dúvidas. O que eles queriam dizer com aquelas pessoas casadas mas não ajuntadas por Deus? Provavelmente sejam pessoas que, por algum motivo, interromperam um primeiro casamento e contraíram outro, imaginei. Ou então se trata de um casamento nos moldes modernos: pessoas do mesmo sexo, coisas do tipo que Deus não tem ajuntado. Mas, para minha surpresa, no decorrer do programa, vim a saber quem eram as pessoas que Deus não havia ajuntado: os casados por interesses financeiros, sexuais ou de ascensão social. Mais alguns minutos e o que estava ruim ficou pior. Era inacreditável, mas eu ouvi: “Se você se casou por um desses motivos e não está feliz, não foi Deus que o ajuntou nesse casamento. Então, enquanto você permanece nele, está impedindo Deus de trazer aquela pessoa com quem, de fato, ele quer ajuntá-lo e que vai lhe fazer feliz”.
E todo esse ataque à família provindo de líderes do alto escalão de uma grande denominação no Brasil. Tal ensino autoriza de forma escandalosa o adultério e torna suscetíveis a ele aqueles casais com um mínimo de crise no casamento, tudo em nome de uma pretensa felicidade. Minha conclusão não podia ser outra: tendo rompido com a família, a igreja, num primeiro momento, tornou-se uma unidade autônoma e, em seguida, gradativamente e com muita sutileza, passou a combater a família. Precisamos urgente de uma restauração.
Mas que igreja será restaurada?
Creio, pelo que ficou dito, que a resposta a essa pergunta não é difícil. Quando falamos em restauração da igreja, não podemos imaginar que vamos restaurar uma igreja organizada, uma entidade, seja ela qual for. Não é assim. Se queremos olhar a igreja original, temos que voltar para a família.
É curioso, mas a Bíblia não usa a expressão “restauração da igreja”. Isso é inferido de Atos 3.21, que menciona uma “restauração de todas as coisas” que precederá o retorno de Jesus à Terra. A dedução é a seguinte: se todas as coisas vão ser restauradas, isso também vale para a igreja. Em Mateus 17, respondendo a uma indagação dos discípulos, Jesus explica-lhes a necessidade da vinda de Elias, que “restaurará todas as coisas”, deixando claro que Elias figura o ministério profético precursor, cumprido em parte na pessoa de João Batista naqueles dias que prepararam a primeira vinda e com um desdobramento previsto para os dias que antecederão a segunda vinda. Podemos ampliar essa compreensão olhando para Malaquias 4.5-6: segundo a profecia, antes de vir o grande e terrível dia do Senhor, Deus enviaria o profeta Elias para restaurar o coração dos pais aos filhos e dos filhos aos pais. Jesus, porém, no mencionado texto de Mateus, ao se referir a Malaquias, dá uma abrangência maior à restauração ao acrescentar “todas as coisas”, o que, reiteramos, inclui a igreja.
Um ministério profético, portanto, deverá estar grandemente envolvido nesta restauração para a volta de Jesus. Não se trata, como ficou dito, de uma restauração meramente organizacional ou denominacional. Trata-se, antes, de uma restauração das famílias, sem o que não teremos a igreja. Na conversão do coração de pais e filhos, temos o elemento detonador que causará todo o “incêndio”. Para tanto, é urgente que a paternidade seja restaurada, ultrapassando algumas expectativas ministeriais eclesiásticas. Antes de apóstolos e profetas, precisamos de pais que reflitam a paternidade do Pai celestial para que seus filhos tenham alguém a quem se converterem. Consequentemente, esses filhos refletirão a filiação de Jesus. Por sua vez, maridos e esposas expressarão o mistério de Cristo e a igreja gloriosa. Tudo começa com a paternidade que favorecerá esse ambiente adequado para se viver como família que represente a família celestial, com o que a igreja será gerada naturalmente.
Fazer igreja fora da família é possível da mesma forma que é possível criar pérolas fora das ostras, ou seja, de maneira artificial, não autêntica. Se nós queremos fazer conforme o que Deus mostrou, conforme o modelo de Deus, temos que olhar, sim, para as famílias restauradas a fim de que elas possam gerar uma igreja restaurada. A mesma família que, conforme lemos em Atos e nas epístolas, serviu para hospedar a igreja e também de base operacional para as missões, precisa estar presente hoje.
Aliás, não havia laboratório melhor para forjar líderes para a igreja do que a estrutura familiar: estava apto a estender sua paternidade sobre outros o pai de família que era irrepreensível no cuidados dos seus, do que se conclui que a igreja era, em boa medida, uma família estendida.
O que fazia notar a presença da igreja numa localidade não era um templo construído na rua principal ou na praça, mas o fato de que ali existiam famílias que haviam mudado o seu estilo de vida.
É algo desafiador para estes dias. Basta recordar um fato recorrente nas eleições de 2010: as polêmicas em torno do aborto, do homossexualismo, entre outras. Pudemos ver líderes da igreja exigindo dos políticos uma postura que nunca exigiram dos seus liderados, como se quisessem impor, através da lei, o cristianismo, quando, na verdade, estes deveriam ser assuntos que estivessem na pauta do dia-a-dia das famílias cristãs, o que, desde cedo, formaria uma consciência nos filhos e nas novas gerações. Como disse um amigo, “aborto não é questão de lei, mas de conversão”.
A mesma coisa vale para o divórcio: quando eu e a Clélia nos casamos, em 1980, ainda estava muito efervescente aquela frustração pelo fato de a lei do divórcio ter sido aprovada no Brasil, havia três anos. Casamo-nos com um pacto antenupcial que hoje nos traz bastantes transtornos, principalmente na realização de um negócio ou na abertura de uma empresa. Mas essa foi a maneira que encontramos de nos casar, em 1980, com uma lei que valeu até 1977. Não porque tivéssemos algum bem em questão, mas para evidenciar ali um sinal de protesto àquela nova disposição legal que tinha sido aprovada. E isso por um único motivo: tínhamos claro entre nós que nunca iríamos usar da lei do divórcio. Para nós era uma lei inócua. Em suma, divórcio, aborto resolvem-se com conversão. Temos que chegar a isso.
Quando nos reunimos para discutir questões eclesiásticas – por exemplo, quem serão os apóstolos restauradores da igreja –, não chamamos nenhuma atenção sobre o fato. Mas basta alguém disparar um comentário cujo assunto seja a homossexualidade, o divórcio, o aborto, levando em conta o ponto de vista de Deus, e a confusão está formada. Ou seja, discutir pautas eclesiásticas dessa entidade própria, autônoma, chamada igreja, não incomoda nem mesmo o diabo. Ele possivelmente ache interessante que gastemos tempo nos distraindo com tais assuntos. Mas nem bem passamos a falar da família, de paternidade, e já se instala a oposição, pois isso implica diretamente a restauração da igreja, ou o caminho pelo qual Deus vai nos conduzir a ela.
Conclusão
Se toda vez que Deus interveio na história, de forma inédita, ele fez através da família, será que agora, na volta de Jesus, iria mudar a estratégia, presumindo ter lançado mão anteriormente do instrumento errado? Não, Deus não mudou o seu plano concebido para o homem desde o princípio. Ele continua contando com a família, sobretudo agora, na restauração de todas as coisas, que antecede a volta de Jesus, embora muito tenha sido feito, em nome de Deus, para, gradativamente, ir-se dispensando a família.
A família tem o seu papel fundamental na restauração da igreja, na restauração de todas as coisas, na vinda de Jesus, na restauração da terra, na participação no milênio, e tudo para revelar uma família maior que vamos ter, a família celestial, que Deus está formando através de inúmeras famílias.
Precisamos nos ver como a família de Noé e encarar o desafio do ineditismo de construir a arca em nossos dias. Esta é a loucura que Deus nos reserva: anunciar, ao mesmo tempo em que saímos em defesa das famílias, que Jesus vem em breve, talvez bem antes do que muitos de nós imaginamos, para estabelecer o seu reinado mundial a partir de Jerusalém. Tanto quanto o projeto de Noé foi tachado de absurdo, o nosso igualmente o será. Mas a exemplo do patriarca bíblico e em oposição ao curso normal deste mundo, precisaremos nos manter fiéis a Deus, achando graça diante dele, cuidando de nossas famílias sem fazer concessões àquilo que é considerado normal.
O maior anúncio aos de nossa casa se verificará no estilo de vida em cuja agenda esteja prevista a possibilidade de um encontro próximo com Jesus. Essa esperança e expectativa ardentes somadas a uma recusa de nos aparentarmos com o mundo alimentarão a fé dos nossos. Deixar cada um entregue a sua vontade não trará salvação.
Noé foi uma exceção radical naqueles dias e manteve a sua família. Nos nossos dias não pode ser diferente. O nosso modelo é o modelo de Deus. Apenas para ele devemos olhar.
E se nós queremos, portanto, ver essa igreja gloriosa se manifestar, não adianta ficarmos discutindo cargos, nomes de denominações ou coisas do tipo: temos que salvar as nossas famílias. Se cada um de nós for um Noé, a arca vai ser construída, vamos conseguir passar o dilúvio e a tribulação e vamos ver Jesus reinando. O que estamos esperando? Agendemos: encontro com Jesus em breve! E estejamos dispostos: há muito o que ser feito.
Sobre o autor:
Tendo participado dos primórdios da Renovação Carismática no Brasil, Pedro Arruda atua há quase 40 anos em grupos de comunhão, sem vínculos denominacionais, que se reúnem em lares de diversas cidades do país. Formado em Teologia, Filosofia e Pedagogia, é empresário e faz parte do Conselho Editorial da Revista Impacto. Junto com outros irmãos, está empenhado na constituição da “Escola de Teologia Viva”, uma alternativa à academia sistemática que monopolizou o ensino da teologia. É autor do livro “A comunhão nossa de cada dia: a reforma da unidade da igreja”. Casado com Clélia, tem três filhos. Reside em Barueri, SP.
