Vivendo como filhos amados de Aba

por Wayne Jacobsen

 
 
A melhor apresentação do evangelho que já ouvi veio da boca de um ateu. Isso talvez surpreenda a muitos, como, à ocasião, aconteceu comigo. Há cinco anos, tomei um avião em Los Angeles com destino a Pittsburg. Sentei-me perto de um homem que trazia uma revista secular cuja capa anunciava a história sobre o conflito entre cristãos e a política nos Estados Unidos. Na primeira oportunidade, perguntei se poderia ler assim que ele tivesse terminado. Depois de certificar-se do meu interesse pelo artigo, disparou: “Eu odeio vocês, cristãos”. Eu nem havia dito a ele que era cristão, e ele já me odiava. “Por quê?”, eu quis saber. Ele demonstrou ressentimento pelo fato de, em sua opinião, os cristãos quererem forçar as outras pessoas a viverem de acordo com as crenças deles.
 
Travamos uma conversa de conhecimento: atividades profissionais, famíla, origens, destino da viagem. Na minha vez, disse que fazia todo o tipo de coisas. Nos aviões, por exemplo, tinha o costume de me apresentar como alguém que vagueia pelo planeta ajudando pessoas a entender o que realmente Jesus ensinou. Ele olhou para mim um tanto assustado e perguntou se eu gostaria de saber o que ele, um ateu que odeia cristãos, pensava sobre o que realmente Jesus ensinou. Disse-lhe que sim e ouvi a melhor apresentação do evangelho com que já tomara contato em toda a minha vida: “Eu acho que Jesus nos ensinou que temos um Pai que nos ama mais do que sabemos e que se pudéssemos entender isso, saberíamos como nos tratar uns aos outros”.
 
Eu fiquei boquiaberto, chocado. Ele quis saber o motivo do meu espanto. “Tenho ido a todas as partes do mundo. Já ouvi todo o tipo de pessoas compartilharem o evangelho, mas nunca ouvi ninguém dizer melhor o que Jesus queria dizer”. Desconfiado, ele perguntou por que eu diria uma coisa daquelas. Respondi-lhe que ele havia dito exatamente o que Jesus diria. Contei-lhe que em sua última noite com os discípulos, Jesus pronunciou as seguintes palavras: “Eu vou dar a vocês um novo mandamento: amem uns aos outros como eu os tenho amado. Assim todo o mundo saberá que vocês são meus discípulos”. Na sequência da conversa, minha pergunta não poderia ser outra: “Por que você não acredita?” A resposta dele foi: “Eu nunca vi alguém viver isso”. Ele pensava que aquilo que Jesus nos ensinou não poderia ser real porque seus seguidores não conseguiram colocar em prática.
 
A única coisa que Jesus nos pediu foi que amássemos uns aos outros como ele nos amou. Lamentavelmente, é a única coisa que nós realmente não fizemos. Por dois mil anos de história religiosa, não aprendemos a amar uns aos outros. Somos conhecidos por brigar entre nós, por discordar sobre o que cremos, por estarmos mais preocupados com nossa doutrina do que com amar as pessoas. Paulo nos alertou em 1 Coríntios 13: é possível estarmos certos sobre tudo, mas sem amor no coração, pouco ou nenhum proveito terá nossa retidão teológica.
 
Jesus veio para nos tornar pessoas que amam. O problema ocorrido muito cedo em nossa história cristã é que passamos de pessoas que estavam encontrando amor no Pai para pessoas que praticam a religião chamada cristianismo. Eu acredito que Jesus veio a esse planeta para fazer ruir no espírito humano aquilo que procura o consolo falso de todas as religiões, inclusive do cristianismo. Ele não começou o cristianismo; fomos nós que o fizemos com nossas tentativas humanas de tomar os ensinamentos dele e construir a nossa própria religião. Jesus nunca quis que fôssemos presos à religião, mesmo a cristã. Ele veio nos convidar a um relacionamento com o Pai dele, por meio do qual podemos ser transformados. Não conseguiremos de outro modo. Acreditar em qualquer coisa diferente disso nos fará fabricar novas regras e criar um sistema que premie os cristãos que melhor seguirem tais regras, distinguindo-os dos demais.
 
Quando as pessoas me perguntam se eu sou cristão, eu digo assim: “Depende do que você quer dizer com cristão. Se você quer me perguntar se eu pratico a religião cristã, a resposta é não. Eu era, mas parei de fazer isso há muito tempo. No entanto se você quer me perguntar se estou apaixonado por Jesus Cristo, se quero seguir os seus caminhos e viver como ele viveu neste mundo, com certeza sou cristão”. Esse é o tipo de cristão que eu quero ser, alguém que se parece com Cristo neste mundo. Não porque aprendi a me comportar direito, mas porque fui transformado por ele.
 
Tantas pessoas no mundo inteiro – Europa, África do Sul, Austrália, Índia – estão ficando esgotadas pela nossa religião cristã. Lêem a Bíblia, oram, tentam ser justas, reúnem-se com outros cristãos, lutam, mas continuam vazias por dentro, desconfiadas de não estarem fazendo as coisas certas. Não lhes resta outra coisa senão se esforçarem ainda mais. O resultado final é esgotamento.
 
Mas há um outro lado bastante animador: por todas as partes do planeta, há pessoas acordando para a paixão de viver amadas pelo Pai. Não tem nada a ver com ir ou não à igreja, esteja ela constituída num prédio, numa casa ou numa reunião debaixo de uma árvore. O importante é conhecer o Pai. Sem isso, não é possível encontrar vida com outros irmãos e irmãs nem aprender uma maneira de viver no mundo revelando a glória de Deus. Esse relacionamento acontece não quando estamos tentando, mas quando não estamos tentando; quando estamos simplesmente vivendo como filhos desse Pai, amando como temos sido amados e então nos envolvendo no mundo com a beleza daquilo que ele tem feito.
 
Eu não saberia dizer o que significa hoje o amar o Senhor de todo o coração, força, alma e entendimento. Que pessoa já fez isso alguma vez na vida? Foi essa a razão de Jesus deixar um novo mandamento: não é mais alguém o amando, mas o quanto Jesus ama cada pessoa. Como ele nos ama (portanto o amor começa nele) devemos nos amar uns aos outros. Jesus amava as pessoas como o Pai o amava porque ele estava no Pai. E o Pai estava nele. Seus discípulos puderam conhecer o amor do Pai através do Filho. Jesus pediu então que vivessem dessa forma, que dessem a outras pessoas aquilo que estavam recebendo.
 
O que precisamos saber hoje é que não podemos nem começar a amar alguém até conhecermos o amor do Pai. Nossa versão humana de amor geralmente significa retribuição e está condicionada aos benefícios que precisamos receber e oferecer para manter vivas as relações. Nosso senso de amor humano é simplesmente uma acomodação das nossas necessidades. Deus não nos ama porque consegue alguma coisa de nós. Ele nos ama como eu amei a minha netinha de um minuto de vida. Quando olhei para Emie, antes que ela pudesse fazer alguma coisa para mim (ela não podia falar comigo, não podia me dar nada que de eu precisava, não podia corresponder aos meus afetos), eu a segurei nos meus braços e soube que a amava com todo o meu ser.
 
O amor do Pai não é um compromisso dele conosco, muito menos a vontade dele de nos mudar. O amor do Pai simplesmente é. Não há no mundo inteiro uma única pessoa que ele não ame com todo o seu ser. Ele nos amava antes mesmo que o pudéssemos conhecer. A religião não pode fazê-lo nos amar mais. Não importa o quanto alguém leia a Bíblia ou tente ser um bom cristão.
 
 
Texto extraído do artigo “Vivendo como filhos amados de Aba”,
publicado na revista Grupo News, edição Dez/2009. Visite o site clicando aqui.
Wayne Jacobsen é autor do livro “Por que você não quer mais ir à igreja”,
publicado no Brasil pela Ed. Sextante.

 

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